Amamos parques – We love parks

Algumas fotos do Parque da Orangerie (Parc de l’Orangerie), em Estrasburgo. Há um menino brincando com outro que ele conheceu ali mesmo, um pai conversando com um amigo ao telefone, na mais perfeita tranquilidade, um ninho de cegonhas e uma mulher tirando fotos das bobagens de que gosta, feliz de saber que o filho está seguro e se divertindo.

Espaços verdes de boa qualidade são essenciais para todos, e particularmente para crianças. Quero dizer lugares com muitas árvores, com o chão limpo (muita ênfase aqui em sem cocô de cachorro), de preferência gramado pra que a gente possa se sentar, vários brinquedos grandes pras crianças (havia vários além deste da foto), acessibilidade e equipamento para pessoas mais velhas ou com problemas de mobilidade, água potável acessível, banheiros e, idealmente, também comida saudável e barata pra vender (não era o caso). Ontem havia várias atividades esportivas monitoradas e é muito evidente que todo mundo se beneficia, cada um e todos podendo encontrar uma atividade interessante, mesmo que seja sentar e assistir.

Eu gostaria que houvesse um consenso equivalente àquele que existe sobre a escola em torno dos espaços públicos de lazer. Todo mundo sabe da importância da educação e, por consequência, das escolas públicas, as pessoas se mobilizam, há um reconhecimento generalizado e imediato quando se fala do tema. Mas não quando se fala da necessidade de espaços públicos nos quais a vida pode assumir outro ritmo, e a educação em particular pode se estender a dimensões muito além do letramento e do raciocínio. Pra não dizer o quanto esses espaços são importantes pra constituição da paisagem, ecologia e clima das cidades.

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Some pics from the Orangerie Park (Parc de l’Orangerie), in Strasbourg. Notice the kid playing with another kid he met there and then, a father talking on the phone to a friend in perfect peace and quiet, a nest full of storks, and a woman taking silly pictures, happy that her kid is safe and having fun.

High quality green free public spaces are essential to people in general, and children in particular. When I say high quality I mean the place must have plenty of trees, the ground must be clean (strong emphasis on no dog poo), and preferably covered by grass so you can sit, there should be playgrounds for children (there were plenty beside the one on the picture), accessibility and equipment suitable for elderly and handicaped people, easily accessible drinking water and toilets, and ideally also cheap healthy snacks for sale (not the case here). Yesterday there were several tutored sportive activities, and we could see how families really enjoy, everyone having something interesting to do, even if just sit back and watch.

I’d like there were a consensus on the importance of public places of leisure similar to that we find on the topic of formal education. Everyone understands how important education is, there’s not a single person, I think, that would deny good schools are vital to societies. But how come there’s not such a consensus around spaces where life can take on a different rhythm and education be extended to dimensions different from reading and writing, counting, etc? Not to mention how important parks are to the landscape, ecology and climate of cities.

É, mais uma mudança – And we moved, yes, once more

Adeus, floresta de Dreux. Gostei muito de você.

Um escargô veio de carona conosco da Normandia à Alsácia, e foi o último (estranho) sinal de frescor que tivemos. Tá um calor danado aqui. Depois de tantas mudanças (6 em 7 anos) eu propus que comprássemos um treiler. A ideia foi entusiasticamente recebida pelo partido de menos de 1,5m, mas violentamente repelida pelo outro. Hmffff.

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Farewell, Dreux forest. I really truly liked you. A snail hitched a hike with us from Normandy to Alsace, and that was the last (weird) sign of freshness we had. It’s horribly hot here. After moving 6 times over the last 7 years I proposed we bought a trailer. The idea was enthusiastically received by the short party, but violently repelled by the other. Sigh.

Pão com ovo especial – Special toast with egg

Se os adultos são sensíveis à apresentação da comida, que dizer das crianças? Essa torrada é fácil e divertida de fazer, e é obviamente mais gostosa. Certo?

Aqui já fizemos com janelinha de coração e estrela. Eu uso uma faquinha boa, mas acho que um cortador de biscoito grande seria ainda melhor. Um pouco de manteiga na frigideira e sal no ovo, provavelmente vai precisar virar, mas um lado sempre fica com o desenho. __________________________________________________________________________________

If we adults are sensitive to the presentation of food, what to say of kids? This one is easy and fun to make, and obviously tastier. Right?

We’ve already tried windows in star and heart shapes. I use a little knife, but a big cookie cutter would be even better. A little butter in the frying pan, some salt on the egg. You’ll probably have to flip but one side always keeps the shape.

Verão – Oh man, it’s hot

No verão o povo aqui na roça francesa vai aos brocantes –  feiras de bugiganga; os vendedores variando de gente que vive disso e tem barracas e mesas e tudo até o camarada que resolveu desentulhar um pouco a casa e põe os trens num plástico sobre a grama. Depois, há muitos eventos bombásticos, a festa da framboesa, o campeonato de bocha (petanque), a festa da música da vila, com apresentação da turma de dança country (pensa em vergonha alheia) e muitas bandinhas de adolescentes que fazem (bons) covers de bandas americanas – mas é bizarro ouvir I’m on the highway to hell nesta pacata, meio senil na verdade, vila da Normandia. Em todo caso no fundo a ideia é ficar fora das casas, que em sua maioria não foram construídas pra esse calor todo, mesmo porque têm em média, bá, sei lá, 100 anos?

E nalgum momento o guri encontrou o colega de escola, cuja família estava comendo barbecue e tomando uma cerveja, e os dois começaram a brincar de pega pega enquanto a bela voz de uma Lana Del Rey francesa enchia a rua principal da vila e os italianos do circo vendiam raspadinha de cores fluorescentes e pá, o tempo pára, os meninos riem, mudam de direção abruptamente e tudo parece perfeito por um instante.

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In suumer here in the French countryside people enjoy going to the brocantes – basically a collective garage sale, but in a public place, sellers ranging from professionals who have all the gear, tents, tables etc., to people who put stuff that was cluttering their homes on plastic on the grass. And then there are events like, say, the raspberry festival, the petanque tournament, and the music feast of the village, in which the class of country dance performs (much to my second-hand embarrassment) and teenage bands do (good) covers of American bands – and oh, how weird it is to listen to Highway to Hell in this really peaceful, kind of senile village in Normandy. But ok, the basic idea is to stay out of the houses/apartments, which were definitely not built for this climate (and how could they, since they are in average at least 100 years old, I guess).

But the kid meets his school friend whose family was having barbecue and beer, and they chase each other while the beautiful voice of some French Lana Del Rey echoes in the main street of the village and the Italians who came with the circus sell ice cream in fluorescent colors, and then bang, time stops, kids laugh and chance direction suddenly, and everything looks perfect for a moment.

Nosso novo verde preferido – Our new favourite green

Então, quando o pessoal pensa em gastronomia francesa, lembra dos vinhos, dos macarons, éclairs, escargots… Tem tudo isso mesmo, mas sério, no dia-a-dia a pessoa não pensa em comer caramujo nem coisas que fazem engordar à velocidade da luz. Felizmente, há descobertas mais sustentáveis a fazer e verdadeiras surpresas, dentre as quais eu gostaria de destacar essa modesta salada, a mâche:

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Nunca tínhamos ouvido falar nela e experimentamos depois de perceber, no supermercado, que ela é super popular, mais que alface, mais que qualquer outra folha, acho. E por uma boa razão, porque é uma delícia! Zero de sabor amargo, super aprovada pelo menino da família, que agora a come com tudo, até macarrão. E ainda é super nutritiva, tem mais potássio que banana (459 mg/100g contra 358 da banana, que ainda amamos, não me entenda mal) e muitos outros nutrientes em quantidades expressivas.

E, olha só, ela não é daqui, mas da América do Norte, África e Eurásia. O que faz pensar que se é tão bem distribuída, dava muito bem pra cultivar na América do Sul, né? Acho que muita gente ia gostar.

Ah, essa foto eu peguei nesse artigo aqui.

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When people think about French gastronomy, it’s the wines, macarons, éclairs and scargots that come to mind. But honestly, I don’t feel like trying snails or getting fatter by the minute everyday. So I was really happy to find out that there are more sustainable new things out there, in particular this modest beauty, the mâche.

Of which we’d never heard but decided to try after we noticed how popular it is in supermarkets, even more than lettuce – or any other salad, I think. And rightly so. It’s delicious – my very-sensitive-to-sour son eats it with enthusiasm – and super packed with nutrients. One thing I was amazed at was its potassium content, higher than that of bananas. Click here for the nutritional facts.

And a last though: the mâche is not from Europe, but pretty much from all the rest of the world (Eurasia, North America and Africa) according to the wikipedia article on it. So why not cultivate it in South America? I bet a lot of people would like it.

Link to the article from which I got the picture (in French).

Et… c’est parti! There we go again.

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Voltamos pra pista, agora na França.

Faz quatro meses, e todos nós ultrapassamos uma barreira que eu não consigo nomear, mas que fica entre “uau/ai, tudo isso é tão bacana/esquisito” e “tá, agora é isso”. A palavra que melhor define a experiência é ambiguidade. A gente sempre pensou em viver fora, pelo menos um tempo, mesmo porque viemos, os dois, de famílias imigrantes. Mas estar aqui não é a realização de uma fantasia, tipo, “ah, agora a gente vai passar um tempo fora e viver novas experiências culturais”, mas de uma necessidade crua, tipo “a economia tá uma m**** e a política um pesadelo apocalíptico”. A educação do Theo também pesou muito porque, como a gente não tinha dinheiro pra pagar a escola privada, ele estava frequentando a pública, e o que eu via lá era deprimente, pra dizer o mínimo. (Não lembro onde nem quando, mas li que o acesso à educação é uma das principais motivações dos imigrantes.)

Também li que as preocupações dos pais quanto à adaptação são exageradas. Mas não acho que seja bem assim. Óbvio que minhas preocupações são bem fundadas! Não, brincadeira, mas há questões sim, só que elas não são a língua ou a comida. O Theo passou do choque e da exploração iniciais pra um cansaço, agora quero ir pra casa, e finalmente pra ok, vou ver vovó, vovô, titia quando formos de férias pro Brasil. E tudo bem, isso custou algum esforço mas de todo jeito essas visitas eram raras (os parentes dele moravam longe e nós só os víamos de 3 em 3 meses). Em três meses de escola ele passou de não entender nada a entender quase tudo e falar o básico. Coisa que nos espanta, mas é totalmente normal pra crianças em imersão.

Mas as questões reais estão noutra parte. Depois de uma série de pirraças monstro, como ele fazia há dois ou mais anos atrás, ele me disse um dia de manhã, logo antes de entrar na escola, “mamãe, sinto falta dos meus amigos que falam português, eu não consigo contar nenhuma história pros meus amigos daqui”. Não fomos só nós que perdemos nossa vida social. Ele também tinha uma vida social, que, eu admito, eu tendi a subestimar. A gente vê as crianças correndo muito, mas não falando tanto com os amigos, e tende achar que se um filho achou outras crianças pra brincar de pega-pega tá tudo bem, tudo na mesma, mas não é assim. Pra eles também, o fato de que se fazem novos laços não significa que pessoas, línguas e lugares sejam intercambiáveis. Cara, é duro aprender a mesma coisa mil vezes.

Ok, inspira, expira…

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We’re back on tracks in France.

It’s been four months now, and we’re all passed some threshold I can’t really name, but it’s one between “wow/yikes this is all so new/weird” to “ok, that’s the new normal”. The word that best defines our experience is, not surprisingly, ambiguity. My husband and I always thought about living abroad, at least for a period, especially since we both come from immigrant families. But coming here was not a daydream come true, as in “oh now let’s spend sometime abroad and have nice cultural experiences”, but the result of dire need, as in “our country’s economy is killing us, and politics are a total nightmare”. Theo’s education also weighed a lot in the decision, because as we couldn’t afford a private school, he was going to the public one, and what I saw there was really depressing, to say the very least. (I read – don’t remember where – that providing children with a good education is a primordial motivation for many immigrants.)

I also read more than once that parents’ concerns about their children adaptation tend to be exaggerated, but I don’t think that’s quite right – oh, of course I have good reasons to be concerned! No, but seriously, it’s really not the language thing, or the food, but there are some issues not to be overlooked. Theo has gone from the initial curiosity and will to explore, to I just want to go home, to ok, so when we go to Brazil on vacations I’ll see grandma/pa. In three months of school from zero French to understanding a lot and speaking the essentials. Which is just amazing, although perfectly normal for kids.

But the real concerns lie somewhere else. Last week, after a row of tantrums like those he used to have much earlier, like two years ago, he finally got to say “mum, I miss my friends who spoke Portuguese, I can’t tell my friends here any stories”. It’s not just us who lost our social life. He had a social life too, and although I knew it, I didn’t realise how deep it went for him. I mean, you see kids running after each other, you don’t see them talking much, so I admit I kind of tend to think that if my child found new friends to chase in the playground all’s the same. He just reminded me it’s not. The fact that we can establish new attachments doesn’t make people, languages or places interchangeable. Doesn’t it feel weird to learn the same thing over and over again?

Ok, breathe in, breathe out.